O subsecretário-geral da ONU, Jorge Moreira da Silva, alertou para a probabilidade de haver uma crise humanitária sem precedentes nos próximos meses devido à falta mundial de fertilizantes. A crise é decorrente do conflito no golfo pérsico, que levou os países produtores de fertilizantes a fechar as portas e disparar os preços. Moreira da Silva, também diretor executivo da UNOPS, fez o alerta durante a 7ª conferência de Lisboa, que debate a Reconfiguração da Ordem Global.
Segundo Moreira da Silva, a falta de fertilizantes vai provocar uma crise humanitária sem precedentes, com 45 milhões de pessoas atiradas para a fome nos próximos meses. Ele destacou que, ao contrário de uma crise alimentar, em que as consequências são imediatas, a falta de fertilizantes só vai mostrar efeitos daqui a alguns meses. O especialista da ONU lidera um grupo de trabalho para negociar a autorização de passagem de navios com fertilizantes pelo estreito de Ormuz.
O estreito de Ormuz é o canal por onde escoa cerca de um terço do comércio mundial de fertilizantes e uma parcela massiva de matérias-primas energéticas, como o petróleo e o gás natural. Com o conflito no Irão, que depois se espalhou por toda a região, a distribuição de fertilizantes e outras matérias-primas essenciais à agricultura praticamente parou. Os países mais dependentes dos fertilizantes que saem do golfo pérsico são os países mais pobres, como Somália, Sudão, Moçambique e Tanzânia.
No entanto, Moreira da Silva destacou que não são só esses países que estão a ser penalizados. O próprio mercado internacional de fertilizantes entrou em disrupção, e a produtividade agrícola, nomeadamente em países africanos, caiu a pico por falta de fertilizantes. Face à perspetiva de crise iminente, as Nações Unidas estão à espera que a vontade política prevaleça para encontrar uma solução.
Moreira da Silva adiantou que já foram feitas e até testadas propostas para fazer verificação das embarcações que passam no estreito, para que pelo menos as embarcações com fertilizantes possam passar. No entanto, lamentou, as partes no conflito ainda não aceitaram esta ideia, apesar de sete meses de conversas e negociações.
Em março passado, a Guarda Revolucionária do Irão reteve dezenas de navios na região do golfo Pérsico, impossibilitando o transporte de cerca de um milhão de toneladas de fertilizantes destinados a mercados como a Europa, Índia, China, Indonésia, EUA e Austrália. A situação é grave e exige uma solução urgente para evitar a crise humanitária.
As Nações Unidas continuam a trabalhar para encontrar uma solução para a crise dos fertilizantes e evitar que milhões de pessoas sejam atiradas para a fome. A comunidade internacional está à espera de uma solução para a crise no golfo pérsico e para a falta de fertilizantes que afeta a produtividade agrícola em todo o mundo.
Key points
- A falta de fertilizantes pode levar 45 milhões de pessoas à fome nos próximos meses.
- O conflito no golfo pérsico é a causa da falta de fertilizantes.
- As Nações Unidas estão à espera que a vontade política prevaleça para encontrar uma solução para a crise.