No panorama da filosofia contemporânea, Jürgen Habermas apresenta-se como uma figura axial na renovação do pensamento político, jurídico, social e ético. Ele introduz novos conceitos, métodos e temas que revivem a arte do debate e da argumentação, marcada por pensadores como Sócrates, Platão e Aristóteles. A sua obra visa reintroduzir a ideia de uma cultura do debate argumentado, essencial para a tomada de decisões informadas e críticas.

A emergência das redes de informação e comunicação ligadas à internet permitiu a criação de uma nova Ágora, redimensionada à escala mundial. No entanto, o espaço público enquanto oportunidade para um pensamento crítico e livre reduz-se quando essas redes são usadas para propagar informações falsas ou não verificadas. O Iluminismo, que nasceu da conjugação entre a ideia de ciência moderna e a defesa de que o saber devia ser tornado público e acessível, pressupunha um público informado, crítico e capaz de pensar por si próprio.

Hoje, a tarefa de construir um projeto de investigação é remetida para a inteligência artificial, sem requerer um pensamento próprio. Para que a informação se torne em conhecimento, e este em saber, precisa de ser estruturada, questionada e criticada. A redução do espaço do pensar e comunicar perante a emergência de novos meios tecnológicos já tinha sido assinalada pelo politólogo Giovanni Sartori no seu livro Homo Videns – televisão e pós-pensamento.

Segundo Sartori, a capacidade de abstração inerente ao pensar teria sido substituída pela visualização. A televisão e a internet recorrem a imagens para ilustrar conceitos complexos, em vez de promover a reflexão e o pensamento crítico. A educação, que remonta à Grécia Antiga e à emergência da filosofia, preocupa-se hoje mais com a capacitação para o uso das novas tecnologias do que com a formação de estudantes para a reflexão ou para o pensamento crítico.

O filósofo Edmund Husserl já afirmava que a modernidade, com a revolução científica e o método experimental, tinha substituído o mundo da vida percepcionado pelas sensações por um mundo quantitativo, matematizado e calculado. O sistema de ensino “positivista” reduziu ou suprimiu o espaço das humanidades, em proveito das ciências e das técnicas, concebendo uma educação mais virada para a automatização do que para a investigação e reflexão autónoma.

Habermas propõe-se repensar as dinâmicas do espaço público e da comunicação, recolocando a deliberação no centro da vida social, cultural e política contemporânea. A sua Teoria do Agir Comunicativo mostra como a tomada de decisões deve resultar de um diálogo onde todos os cidadãos devem ter voz. Entre os direitos fundamentais, deve contar-se o direito à palavra, reconhecido no âmbito de uma vivência social em liberdade e igualdade de direitos e deveres.

A diversidade de posições não impede, mas é antes condição para a formação de consensos com duração e alcance conjuntural ou estrutural. A discussão deve ser guiada pela procura em conjunto do bem comum, da verdade e da justiça. A teoria e prática jurídica não consistem simplesmente na elaboração de leis, mas na procura da justiça, implicando uma ordem normativa e ética.

Key points

  • Habermas propõe repensar as dinâmicas do espaço público e da comunicação.
  • A educação deve preocupar-se com a formação de estudantes para a reflexão e o pensamento crítico.
  • A discussão deve ser guiada pela procura em conjunto do bem comum, da verdade e da justiça.

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Reporting for SaharaWire from the Nairobi bureau.