Uma investigação do Citizen Lab, unidade de investigação da Universidade de Toronto, no Canadá, revelou que uma empresa israelita especializada em operações de influência formou funcionários do Governo angolano para intervir nas redes sociais. A empresa, BlackCore, comercializa serviços de influência digital e prometeu criar uma estrutura profissional de comunicação do Estado em Angola. A investigação, assinada por Alberto Fittarelli, John Scott-Railton e Maia Scott, examina a operação que associava formação técnica à execução de campanhas destinadas a moldar o debate público.

A formação, que começou a 19 de Janeiro de 2026 e prolongou-se por mais de 14 semanas, até Abril, foi oferecida em quatro semanas e previa o lançamento de campanhas na Meta e no TikTok durante a terceira semana. O programa incluía a criação de conteúdos dirigidos aos jovens no TikTok e o estudo dos públicos angolanos. A proposta mostra uma ambição de continuidade: deixar no país capacidade instalada para produzir, distribuir e avaliar mensagens depois de concluído o curso.

Os investigadores encontraram uma página intitulada “Campanha do Governo Angolano”, ainda acessível no início de Abril de 2026, mas entretanto eliminada. Ali se anunciava a formação e se apresentavam os resultados previstos, incluindo um repositório de histórias relacionadas com as várias províncias, modelos de comunicação, um calendário editorial para três meses e um painel de acompanhamento de resultados.

A investigação identificou a Agita News, uma página de Facebook que se apresentava como órgão de informação, mas que era fictícia e utilizada para divulgar conteúdos próprios e encaminhar leitores para um sítio externo. Os investigadores reconstituíram o método utilizado: criavam mensagens publicadas por identidades falsas, que eram depois reproduzidas em grupos, ampliando-se artificialmente a sua circulação.

Dois perfis foram associados à operação, com elevado grau de confiança: “Dorivaldo Kiala” e “Gancho Atalaia”. O primeiro apresentava-se como activista político angolano, enquanto o segundo surge em imagens do painel de administração da página de Facebook Angola 24 Horas como autor de uma publicação. Ambos parecem ser personagens fictícias, com fotografias provavelmente geradas por inteligência artificial.

O Citizen Lab sublinha que os documentos analisados não nomeiam os funcionários angolanos formados pela BlackCore. A identidade digital construída para influenciar o público protegia o anonimato de quem a utilizava. O relatório da empresa contabiliza mais de 40 conteúdos produzidos e pelo menos 24 publicações avaliadas. Uma imagem relativa à Agita News mostra quase 200 mil visualizações numa publicação.

A investigação levanta questões sobre a relação do Executivo angolano com a BlackCore, os serviços contratados, o valor do serviço e a origem dos pagamentos. A resposta exige documentos e responsáveis identificados. Se uma estrutura que se apresenta como comunicação do Estado recorre a identidades inventadas, está em causa a confiança dos cidadãos reais. O poder público deve esclarecer quem fala em seu nome e com que recursos.

Key points

  • A empresa israelita BlackCore formou funcionários do Governo angolano para intervir nas redes sociais através de identidades falsas e conteúdos coordenados.
  • A investigação do Citizen Lab revelou que a operação tinha como finalidade a divulgação de campanhas favoráveis ao Governo.
  • O Executivo angolano deve esclarecer a relação com a BlackCore e os serviços contratados.

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Reporting for SaharaWire from the Nairobi bureau.